Vamos descrever a
paisagem?
Eu sei, eu sei, muitos
vão ler isso aqui e pensar: “Pô, descrição de paisagens, que positivista! A
Geografia já saiu dessa fase...”
E é verdade, a
Geografia cujo único proposito era a descrição de paisagens já não existe, ao
longo dos anos, os geógrafos perceberam que a complexidade do espaço
vai muito além de uma simples descrição. E o que estou propondo aqui não é que
voltemos nossos estudos nesse sentido, mas sim que prestemos mais atenção ao
nosso entorno.
É além da Geografia
como ciência, é o também sentir o mundo como pessoas. Fenomenológico?
Talvez, por que não? No entanto, para mim às vezes mais importante do que
estudar e ter uma série de conhecimentos é vivenciar a questão; e a Geografia é
uma ciência que permite que tenhamos essa união que pode ser muito prazerosa e
nos levar a análises mais humanitárias.
Eu posso ficar horas
lendo sobre uma comunidade rural, mas só vou senti-la quando visitar uma. Eu
leio e posso logo esquecer, mas as sensações que vivenciar a paisagem me
proporciona leva há dias, meses, ou até mesmo anos, de reflexão.
Um problema é que
olhar uma paisagem pode ser simplesmente isso... olhar. Para sentir e entender
além do que é dado é necessário ter certa gama de conhecimento (apesar de
acreditar que essa reflexão pode levar ao conhecimento - em um sentido
mais acadêmico). Assim como é necessário saber ler para entender o que
está escrito em um livro, é necessário ter conhecimento para ler uma
paisagem.
Além disso, é
preciso querer, parar um pouco sua vida agitada e olhar para o que se olha
todos os dias e perceber o que não se nota. Acho que toda pessoa que cursa
Geografia sente a diferença que é olhar para um local qualquer antes e
depois da Geo. É outra análise. Muitas pessoas não entendem a nossa relação de
amor com o espaço, eu, por exemplo, posso ficar horas olhando a paisagem e isso
não significa que não estou fazendo nada, pelo contrário, estou
geografando.
Volto agora para a
pergunta que faço no começo: vamos descrever a paisagem?
Mas por que descrever?
Porque acredito que a descrição
pode levar a descobrimentos. Às vezes na simples enumeração do que existe pode
nos levar a coisas novas. Observe um lugar, agora enumere o que existe ali, de
alguma forma irá surgir algo que você não tinha percebido antes. A descrição é
algo fácil de fazer, o difícil é o depois, porém essa primeira fase é
importante.
Lembro-me das aulas de paleontologia que o professor sempre falava: “Na
dúvida se o fóssil é verdadeiro ou não, ou que tipo é, desenhe.” E eis outro
ponto que acho importante na descrição, o croqui. Quando se coloca no papel o
que só seus olhos veem é como se a paisagem tomasse forma e os detalhes vão
surgindo.
Eu gostava de fazer isso com os meus alunos da quinta série, levar uma
foto e descrever o que tem nela, ou fechar os olhos e lembrar-se de outro lugar
e irmos falando as diferenças e as semelhanças. Além do olhar geográfico ajuda
bastante nas aulas de língua portuguesa, em bons livros metade da história é
descrição de paisagens, onde o autor através
das palavras consegue nos transportar até o seu mundo imaginado ao ponto de
conseguirmos visualizar a paisagem.
Para terminar fica a citação da definição de paisagem de Milton Santos:
[...] tudo aquilo que nós vemos, o que nossa
visão alcança, é a paisagem. Esta pode ser definida como o domínio do visível, aquilo que a
vista alcança. Não é apenas formada de volumes, mas também de cores, movimentos, atores, sons, etc. (Milton Santos, 1988).
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